quinta-feira, 26 de março de 2015

Aborto seguro no Brasil: como fazer

por Letícia Bahia


Eu devia ter uns 16 anos quando ouvi falar sobre o barco do aborto pela primeira vez. Estávamos no início dos anos 2000, e a médica holandesa Rebecca Gomperts, fundadora da ONG Woman on Waves, levava seu navio para países onde o aborto era ilegal com o objetivo de ajudar mulheres que desejassem interromper sua gravidez. Seu plano era embarcá-las e realizar o procedimento de maneira segura em alto mar, onde a lei internacional estipula que a embarcação deve obedecer à legislação do país de origem (na Holanda, o aborto é legal). 


Rebecca Gomperts chega à Polônia com o navio da Woman on Waves

O navio passou por Irlanda, Portugal, Espanha, Polônia. Aqui no Brasil, os jornais faziam chegar a marola do "barco da morte", e a discussão sobre o aborto me alcançou na inexperiência dos meus 16 anos. Lembro-me de ter achado o plano de Rebecca genial e incrivelmente audacioso. Mas acho que eu era contra o aborto, porque me lembro de repetir à exaustão um argumento que ouvira de um médico na TV: era irresponsável, eu dizia, levar as mulheres para abortarem, devolvê-las à costa e depois partir para o próximo porto. E se houvesse complicações? Rebecca e sua equipe simplesmente não estariam lá para dar suporte às pacientes depois do aborto.

À época eu não sabia que 1 milhão de brasileiras fazem aborto a cada ano, nem que o procedimento realizado de forma insegura mata 13% das mulheres que recorrem a ele. E eu não sabia, até esta semana, que graças ao trabalho de Rebecca é possível realizar um aborto seguro no Brasil.

O site da Woman on Web, organização filha da Woman on Waves e também comandada por Rebecca, disponibiliza informação, suporte médico online e - o mais importante - pílulas de misoprostol e mifepristona, que são enviadas pelo correio a partir de um fornecedor na Índia.

A ONG adverte para o risco de os comprimidos não chegarem, já que o misoprostol - que aqui ficou conhecido com o nome comercial de Cytotec - é proibido no Brasil, apesar de constar na lista de medicamentos essenciais da OMS. Mas sim, é possível realizar um aborto seguro no Brasil.

Os esforços de Rebecca vão no sentido de divulgar informações sobre o aborto seguro, também conhecido como aborto médico, e tornar os comprimidos acessíveis às mulheres. Se o debate político parece estar trancado por aqui, o fluxo de informações que a Woman on Web faz circular avança com a potência de um tsunami.

Algo impossível parecia estar acontecendo quando o site da ONG se abriu na tela do meu PC. Era como se eu acessasse o Facebook de uma casinha na Coréia do Norte. "Este site irá pôr você em contato com um médico que poderá proporcionar-lhe um aborto medicinal". Era isso mesmo que estava escrito? Era isso mesmo que eu estava lendo, no mesmo país que matou Jandira Magdalena dos Santos?

Esfreguei os olhos e a miragem na tela brilhante não se desfez. Eu pensei nas amigas que já fizeram um aborto e nas desconhecidas que morreram por tentarem. E então um pensamento me atingiu como uma flecha: "preciso contar isso para mais mulheres". 





8 comentários:

  1. Letícia,
    Lindo trabalho de utiidade pública!! Obrigada! <3

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    1. Eu que agradeço, Lúcia! Vamos divulgar!

      Grande abraço!

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  2. Muito bom o teu texto. Abraços.

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  3. Oi, Suely, que bom que gostou. Volte sempre!

    Abraço!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Meu professor de sociologia me indicou o blog e eu devorei todos os posts, agora só consigo ficar ansiosa pelo próximo. Abriu meus olhos para muitas coisas, parabéns pelo trabalho!

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    1. Querida Caroline,

      Depoimentos como o seu me dão vontade de devorar com palavras todas as pautas do mundo. A gente aqui do lado de cá fica muito sem saber se as pessoas estão lendo e o que estão achando. Que bom que você gosta, e que bom que o blog te trouxe novas reflexões. É só pra isso que ele existe!

      A propósito, quem é seu professor? Fiquei curiosa, será que eu conheço?

      Beijo grande

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  6. Será? Ele se chama Lucas Balieiro ahahah

    Beijo!

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